Taça de tinto girando de perto, com o vinho subindo pelas paredes do copo

Como degustar vinho sem complicação

Aprenda a observar, cheirar e provar um vinho sem precisar seguir um ritual complicado.

Leandro Ribeiro

· 7 min de leitura

Aprenda a observar, cheirar e provar um vinho sem precisar seguir um ritual complicado.

Degustar vinho pode parecer algo cheio de regras.

Olhar contra a luz, girar a taça, cheirar várias vezes, provar devagar...

Mas, na prática, degustar é muito mais simples.

Você pode começar com apenas três ações:

observar, cheirar e provar.

A ideia não é transformar cada taça em uma avaliação técnica.

É apenas prestar um pouco mais de atenção ao que o vinho mostra.

Comece olhando o vinho

Antes de levar a taça ao nariz, observe por alguns segundos.

Você pode reparar em:

cor,
intensidade,
clareza
e aparência geral.

Essas características podem trazer algumas pistas sobre o vinho.

Mas atenção:

a aparência não serve, sozinha, para dizer se um vinho é bom ou ruim.

Ela é apenas o primeiro contato.

Mulher cheirando uma taça de tinto à mesa, com caderno e tábua de queijos à frente

O que a cor pode mostrar?

A cor do vinho pode variar bastante.

Nos tintos, encontramos tons como:

púrpura,
rubi,
vermelho mais claro,
granada
e tonalidades mais acastanhadas.

Nos brancos:

quase transparente,
amarelo-palha,
dourado
ou tons mais intensos.

Nos rosés:

rosa muito claro,
salmão,
rosa intenso
ou nuances próximas do cobre.

Essas diferenças podem estar relacionadas a fatores como:

variedade da uva,
produção,
tempo de contato com as cascas,
amadurecimento
e idade do vinho.

Mulher com uma taça de tinto num terraço ao pôr do sol, com o vinhedo ao fundo

A cor pode indicar a idade?

Pode dar algumas pistas.

Em muitos tintos jovens, é comum encontrar cores mais vivas e arroxeadas.

Com a evolução, alguns começam a apresentar tonalidades mais granada ou acastanhadas.

Nos brancos, vinhos jovens costumam apresentar cores mais claras, enquanto determinados estilos podem se tornar mais dourados com o tempo.

Mas isso não funciona como uma regra absoluta.

A uva, o estilo e a produção também influenciam bastante.

Por isso:

cor é pista, não diagnóstico.

Cor mais escura significa vinho melhor?

Não.

Algumas variedades produzem naturalmente vinhos de coloração intensa.

Outras costumam gerar vinhos mais transparentes.

Um Pinot Noir, por exemplo, pode ser bastante claro.

Já muitos Malbecs ou Syrahs apresentam cores muito mais profundas.

Isso não significa que um seja melhor que o outro.

A intensidade da cor é apenas uma característica do estilo.

O que observar na clareza?

Você também pode perceber se o vinho está:

límpido,
brilhante,
levemente turvo
ou apresenta algum depósito.

A maior parte dos vinhos comerciais chega à taça com aparência bastante limpa.

Mas turbidez ou sedimentos não significam automaticamente que existe um problema.

Alguns vinhos passam por pouca filtração.

Garrafas mais antigas também podem desenvolver depósitos naturais ao longo do tempo.

É preciso considerar o contexto.

E aquelas lágrimas que descem pela taça?

Depois de girar o vinho, é comum aparecerem gotas descendo pelas paredes da taça.

Elas são chamadas de:

lágrimas, pernas ou arcos.

Existe uma crença antiga de que:

“quanto mais lágrimas, melhor o vinho.”

Isso não é verdade.

O que causa as lágrimas do vinho?

As lágrimas estão relacionadas principalmente ao comportamento físico da mistura de:

água, álcool e outros componentes do vinho.

O álcool evapora mais rapidamente que a água, criando diferenças de tensão superficial que ajudam a formar esse movimento nas paredes da taça.

Teor alcoólico, açúcar, temperatura e até as condições da própria taça podem influenciar o resultado.

Por isso:

lágrimas não são uma medida de qualidade.

Agora use o nariz

Depois de observar, aproxime a taça e cheire naturalmente.

Você não precisa procurar aromas específicos logo de início.

Comece de forma ampla.

Pergunte:

Tem fruta?

Flores?

Ervas?

Especiarias?

Algo que lembre madeira ou tostado?

Isso já é suficiente.

Por que cheirar o vinho?

Porque grande parte da experiência que chamamos de sabor depende também do olfato.

O vinho possui vários compostos aromáticos.

Eles podem lembrar:

morango,
ameixa,
limão,
flores,
ervas,
pimenta,
baunilha
e muitos outros aromas.

Ao cheirar antes de provar, você começa a conhecer uma parte importante da personalidade daquele vinho.

Por que giramos a taça?

Girar a taça ajuda a aumentar a superfície do vinho em contato com o ar.

Isso facilita a liberação de compostos aromáticos.

Na prática, alguns aromas podem ficar mais evidentes depois de um giro suave.

Não existe necessidade de fazer movimentos grandes.

Uma forma simples é apoiar a taça sobre a mesa e desenhar pequenos círculos.

Faça uma comparação

Antes de girar, cheire uma vez.

Depois:

gire suavemente e cheire novamente.

Pergunte:

algo mudou?

Talvez a fruta fique mais evidente.

Talvez apareça algum aroma novo.

Ou talvez a diferença seja pequena.

Tudo bem.

Degustar também é comparar.

Agora prove

Dê um gole pequeno.

Não precisa bochechar ou fazer movimentos exagerados.

Apenas deixe o vinho passar pela boca e tente perceber algumas sensações.

Uma boa primeira pergunta é:

Como esse vinho parece na minha boca?

O primeiro gole pode ser diferente do segundo

O primeiro gole nem sempre revela tudo.

Sua boca estava adaptada a outras sensações antes do vinho.

Por isso, o segundo gole muitas vezes parece mais fácil de interpretar.

Não existe necessidade de tirar conclusões imediatamente.

Dê alguns segundos para o paladar se adaptar.

O que observar na boca?

Você pode começar com algumas características simples.

Corpo

O vinho parece:

leve, médio ou mais encorpado?

Pense na sensação de peso e volume.

Acidez

Depois do gole, sua boca começa a salivar?

Essa é uma boa pista da presença de acidez.

Taninos

Sua boca fica mais seca ou adstringente?

Essa sensação aparece principalmente em muitos tintos.

Álcool

Existe uma sensação de calor no final?

O álcool pode contribuir para isso.

Doçura

Você percebe açúcar?

Ou o vinho parece predominantemente seco?

Sabores

O que apareceu no aroma também aparece na boca?

Talvez você tenha sentido frutas no nariz e agora perceba também:

especiarias,
ervas,
acidez
ou outras sensações.

Você não precisa identificar tudo.

Comece pelo que chama mais atenção.

E o equilíbrio?

Depois de perceber algumas características, faça uma pergunta:

alguma delas está dominando demais?

Talvez o álcool pareça muito quente.

A acidez excessivamente agressiva.

Ou os taninos estejam muito secos.

Quando os elementos parecem funcionar bem juntos, falamos em equilíbrio.

Isso não significa que o vinho precisa ser delicado.

Um vinho pode ser muito intenso e ainda assim equilibrado.

O que é o final do vinho?

Depois que você engole o vinho, algumas sensações podem permanecer.

É o chamado:

final
ou
persistência.

Em alguns vinhos, os sabores desaparecem rapidamente.

Em outros, permanecem por mais tempo.

Você pode continuar percebendo:

fruta,
especiarias,
acidez,
taninos
ou outras características.

Final mais longo significa vinho melhor?

Não necessariamente.

Uma persistência agradável pode ser uma característica interessante.

Mas duração, sozinha, não define qualidade.

Também importa o que permanece.

Um vinho pode deixar durante muito tempo uma sensação agradável de fruta e frescor.

Ou pode deixar álcool excessivo ou amargor desagradável.

Por isso, o final deve ser observado como parte do conjunto.

Preciso sentir todos os aromas descritos no rótulo?

Não.

Imagine que a descrição diga:

“cassis, violeta, cedro e especiarias.”

Você cheira e pensa apenas:

“frutas escuras.”

Isso já é válido.

As descrições são referências.

Não existe uma prova em que você precisa encontrar exatamente as mesmas coisas que outra pessoa encontrou.

Com experiência, seu vocabulário pode se tornar mais específico.

Mas isso acontece aos poucos.

Existe uma ordem simples para degustar?

Sim.

1. Observe

Veja cor, intensidade e aparência.

2. Cheire

Tente perceber famílias de aromas.

3. Gire suavemente

Cheire novamente e compare.

4. Prove

Observe corpo, acidez, taninos, álcool, doçura e sabores.

5. Perceba o final

Veja o que permanece depois do gole.

É suficiente.

Você não precisa transformar todo vinho em uma análise

Também existe um ponto importante.

Nem sempre você precisa parar para avaliar uma taça.

Às vezes, vinho é simplesmente:

abrir,
servir
e aproveitar.

Degustar com atenção é uma ferramenta para aprender mais.

Não precisa virar obrigação.

Sobre Vinhos explica

Se quiser guardar apenas uma ideia:

degustar é prestar atenção.

Você não precisa:

decorar aromas,
falar palavras difíceis,
descobrir a uva às cegas
ou seguir um ritual.

Use aquilo que você já possui:

olhos, nariz e boca.

Observe.

Cheire.

Prove.

E tente entender o que chamou sua atenção.

Na prática: faça o teste de um minuto

Na próxima taça, experimente algo simples.

Olhe

A cor é clara ou intensa?

Cheire

Qual é a primeira impressão?

Fruta? Flores? Ervas?

Gire

Cheire novamente.

Alguma coisa mudou?

Prove

Pergunte:

Parece leve ou encorpado?

Faz minha boca salivar?

Deixa sensação de secura?

Existe calor do álcool?

Espere alguns segundos

O sabor desapareceu rapidamente ou continuou?

Por fim, faça a pergunta mais importante:

Eu gostei?

Porque aprender a degustar não serve apenas para falar melhor sobre vinho.

Serve principalmente para entender melhor o que você gosta de beber.

Leandro Ribeiro, fundador da Sobre Vinhos

Leandro Ribeiro

Fundador da Sobre Vinhos

Às vezes, eu só queria comprar um vinho. Escolher bem, abrir a garrafa e aproveitar. Mas, para quem estava começando, tudo parecia mais difícil do que precisava ser. Muitos termos, muitas explicações e, em alguns casos, clubes ou assinaturas. E eu pensava: “Eu só quero tomar um vinho.” Foi dessa dificuldade que nasceu a Sobre Vinhos. Um lugar para aprender, descobrir novos rótulos e escolher melhor, de forma simples e leve. Sem complicação. Sem transformar cada taça em uma aula. Hoje, sigo aprendendo, conhecendo produtores, regiões e histórias. E compartilhando aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei.