Dezenas de sombrinhas coloridas e estampadas penduradas sobre um pátio, com um carro antigo verde estacionado embaixo.

Vila Don Patto: mais de um século de história entre vinho, gastronomia e São Roque

Quem percorre a Estrada do Vinho, em São Roque, provavelmente encontrará a Vila Don Patto entre as paradas mais conhecidas do roteiro.

Leandro Ribeiro

· 11 min de leitura

Quem percorre a Estrada do Vinho, em São Roque, provavelmente encontrará a Vila Don Patto entre as paradas mais conhecidas do roteiro.

Mas existe algo importante para entender antes de visitar:

a Vila Don Patto de hoje é muito mais do que uma adega ou um lugar para comprar vinho.

O complexo reúne gastronomia, parreirais, adega, empório, espaços ao ar livre, cervejaria, boulangerie, gelato, áreas de lazer e, mais recentemente, um hotel boutique.

É possível passar algumas horas ali sem participar de nenhuma degustação.

Mas quem quiser se aproximar do vinho também encontra parreirais e experiências ligadas ao enoturismo.

Para entender como tudo isso chegou até aqui, precisamos voltar mais de cem anos.

A história começa em Portugal

José dos Santos Patto nasceu em Portugal, em 1893.

Aos 19 anos, veio para o Brasil e se estabeleceu em São Roque, no bairro Gabriel Piza.

Segundo a história registrada pela própria família, sua primeira atividade no país foi como alfaiate. Pouco tempo depois, porém, começou a trabalhar também com uvas e produção de vinho.

A relação da família com a bebida ganhou forma em 1918, quando foi fundada a primeira adega familiar, chamada Minho e D'Ouro.

José permaneceu à frente da atividade até 1960, quando seu filho, Júlio dos Santos Patto, assumiu os negócios.

É por isso que a família pode falar hoje em mais de um século de ligação com o vinho em São Roque.

Patto, Pattão e Real D'Ouro

A segunda geração continuou desenvolvendo a atividade.

Em 1962, durante a Festa da Cidade, Júlio dos Santos Patto lançou o vinho Pattão. Segundo a família, o produto ajudou a ampliar a comercialização para mercados como Santos e Rio de Janeiro.

Em 1979, Júlio Miguel dos Santos Patto, neto do fundador, assumiu a administração.

Foi nessa fase que surgiu também a marca Real D'Ouro.

A família continuou produzindo seus próprios vinhos até 2010. Depois disso, a produção das marcas tradicionais passou a ser terceirizada, enquanto Júlio direcionou sua atenção para um projeto diferente.

Era o começo da Vila Don Patto como conhecemos atualmente.

De produtora de vinho a destino de gastronomia e lazer

Júlio Miguel tinha interesse especial por gastronomia e sonhava em criar um restaurante.

Em 2010, esse projeto ganhou forma com a Vila Don Patto.

A antiga tradição familiar ligada ao vinho não desapareceu, mas passou a dividir espaço com uma proposta muito mais ampla: transformar a propriedade em um lugar para comer, passear, descansar e ter contato com o universo do vinho de maneira descomplicada.

Esse ponto ajuda a entender o empreendimento atual.

A Vila Don Patto não funciona apenas como uma vinícola onde o visitante chega para acompanhar uma linha de produção.

Hoje, o próprio empreendimento se apresenta como um complexo de gastronomia, entretenimento e hotelaria.

Afinal, a Vila Don Patto é uma vinícola?

Essa pergunta merece uma resposta mais cuidadosa do que simplesmente “sim” ou “não”.

A história da família é profundamente ligada à produção de vinho.

O local possui parreirais, comercializa vinhos próprios e faz parte oficialmente das Rotas do Vinho de São Paulo, que registra atividades como visita aos vinhedos, degustação, piquenique e vindima.

Mas, para quem visita atualmente, a experiência é muito mais próxima de um grande complexo enogastronômico e turístico com raízes vitivinícolas.

Essa definição representa melhor aquilo que o visitante encontrará.

A primeira experiência é simplesmente aproveitar o lugar

Você não precisa entender de vinho para visitar a Vila Don Patto.

Também não precisa necessariamente reservar uma degustação.

O complexo reúne diversos espaços distribuídos em meio à vegetação e inclui restaurantes, Vinhas da Vila, empório, adega, boulangerie, fábrica de gelato, cervejaria, bistrô e parrilla, artesanato, redário e playground, entre outras operações.

É por isso que muitas pessoas vão até lá simplesmente para passar parte do dia.

Pode começar com um café.

Depois uma caminhada.

Talvez um almoço.

Uma visita à adega.

Uma taça de vinho.

E, quando percebe, o passeio já ocupou boa parte do dia.

Esse caráter descomplicado é uma das maiores forças do lugar.

Portugal continua presente à mesa

Corredor de parreiral coberto por tela escura, com cachos de uva pendurados nas latadas e grama entre as fileiras.

A origem portuguesa da família aparece com bastante força na gastronomia.

O restaurante português trabalha com pratos tradicionais como bacalhau, alheira, sardinha e leitão, entre outras preparações. Segundo a própria Vila, a culinária portuguesa é uma de suas marcas justamente por representar as raízes familiares.

Nesse caso, Portugal não é apenas uma escolha estética.

Existe uma história familiar por trás dessa identidade.

Para quem gosta de vinho, também surge uma oportunidade natural de pensar em harmonização.

Bacalhau, carnes, pratos mais intensos e diferentes estilos de vinho acabam fazendo parte da mesma experiência.

E existe também um restaurante italiano

A oferta gastronômica aumentou com o tempo.

Em 2017, foi inaugurado o restaurante italiano La Pasta, com antepastos, massas, risotos, carnes e sobremesas.

Isso ajuda bastante quando o passeio envolve grupos ou famílias.

Uma pessoa pode estar muito interessada em vinho.

Outra prefere gastronomia.

As crianças querem espaço para brincar.

Outra pessoa quer apenas um café ou sobremesa.

A Vila consegue reunir públicos bastante diferentes dentro de um mesmo complexo.

A adega e o empório

Para quem chega interessado especialmente em vinho, a Adega Don Patto é uma parada natural.

Ali são comercializados vinhos nacionais, importados e linhas da própria marca Don Patto.

Ao lado, o empório reúne produtos como queijos, embutidos, biscoitos, compotas, geleias e doces, criando uma experiência próxima à de um pequeno mercado gourmet dentro do roteiro.

Existe, porém, um detalhe importante para o leitor da Sobre Vinhos:

a marca Don Patto não deve ser interpretada automaticamente como sinônimo de vinho produzido com uvas cultivadas em São Roque.

O próprio site divulga, por exemplo, a linha Don Patto Terroir, ligada a terroirs chilenos.

Se o objetivo for conhecer especificamente vinhos de origem paulista, vale sempre observar a procedência indicada no rótulo e perguntar na adega quais opções estão ligadas aos vinhedos locais.

Vinhas da Vila: onde o vinho volta para o centro da experiência

Uma das áreas mais interessantes para quem gosta de vinho é o Vinhas da Vila.

O espaço funciona embaixo dos parreirais e foi criado justamente para reunir vinho, petiscos, conversa e natureza.

Atualmente, o site oficial informa funcionamento aos sábados e domingos, das 10h às 18h.

É uma experiência bem diferente de uma degustação técnica.

Você não precisa ficar tentando identificar cinco aromas diferentes.

Pode simplesmente sentar sob as videiras, beber uma taça e aproveitar o lugar.

E isso também é enoturismo.

Quais uvas existem por ali?

A rota oficial de enoturismo do Estado de São Paulo registra diferentes variedades ligadas à Vila Don Patto, incluindo Touriga Nacional, Shiraz, Alvarinho, Cabernet Franc, Niágara, Isabel, Lorena, Chardonnay e Tannat, além de outras uvas.

Essa diversidade mostra a convivência entre a tradição vitícola de São Roque e experiências com diferentes variedades.

Mas é importante não dar um passo além daquilo que as fontes permitem afirmar:

ter essas variedades nos vinhedos não significa que todo vinho vendido pela Vila seja necessariamente elaborado apenas com essas uvas ou produzido integralmente dentro da propriedade.

É justamente essa distinção que mantém a informação correta.

Dá para conhecer o vinhedo?

Parreiral com cachos de uva pendurados sobre mesas e cadeiras de jardim dispostas na grama, sob cobertura de tela.

Sim.

A Vila Don Patto está incluída nas Rotas do Vinho de São Paulo com experiências de visita ao vinhedo, degustação, piquenique e vindima.

A disponibilidade dessas atividades pode mudar de acordo com calendário e época do ano.

Por isso, quem pretende viajar especificamente para participar de uma delas deve confirmar antes.

Esse cuidado é importante porque visitar o complexo e participar de uma experiência enoturística não são necessariamente a mesma coisa.

Você pode simplesmente chegar para aproveitar os espaços abertos e a gastronomia.

Já determinadas experiências podem depender de agenda ou reserva.

E a vindima?

Vindima é o nome dado ao período de colheita das uvas.

É um momento particularmente interessante para quem está começando a conhecer vinho porque aproxima o visitante da parte mais básica, e mais importante, de todo o processo:

a agricultura.

Antes da garrafa, existe a videira.

Antes do sommelier, existe o campo.

Antes dos aromas, taninos e harmonizações, alguém precisou cultivar e colher aquela fruta.

Quando há programação de vindima disponível, ela oferece uma maneira muito mais visual de entender essa relação. A rota estadual inclui essa experiência entre as atividades associadas à Vila Don Patto.

Agora existe também hotel

Essa é uma mudança importante para quem conheceu a Vila Don Patto há alguns anos.

O Hotel Boutique Vila Don Patto já está recebendo hóspedes e, neste momento, encontra-se oficialmente em soft opening.

Isso significa que a abertura está acontecendo de forma gradual, com alguns serviços ou horários podendo operar de maneira reduzida enquanto a equipe finaliza ajustes.

A chegada do hotel muda bastante a proposta do complexo.

O que antes era principalmente um passeio de algumas horas passa a permitir uma experiência de fim de semana.

Como é o Hotel Boutique?

As informações oficiais atuais apresentam suítes privativas, piscina climatizada, varandas particulares com vista para as montanhas e um restaurante voltado para os parreirais.

Isso cria uma experiência diferente do tradicional bate-volta para São Roque.

Você pode chegar sem pressa.

Almoçar.

Conhecer a adega.

Tomar vinho.

Dormir no próprio roteiro.

E continuar conhecendo outras propriedades no dia seguinte.

Para uma região de enoturismo, essa mudança é muito relevante.

Por que isso importa para São Roque?

São Roque fica relativamente próxima da capital paulista e, durante muito tempo, o roteiro foi bastante associado ao passeio de um dia.

Sair cedo de São Paulo.

Visitar algumas propriedades.

Almoçar.

Comprar vinho.

Voltar para casa.

Com mais opções de hospedagem dentro do próprio roteiro, surge outra maneira de conhecer a região.

Mais devagar.

E vinho combina bastante com isso.

A Vila Don Patto é interessante para quem entende pouco de vinho?

Muro de pedra com a placa VILA DON PATTO HOTEL BOUTIQUE em letras douradas, ao lado de um portão, com árvores altas atrás.

Talvez seja justamente um dos melhores públicos.

Porque você não precisa chegar ali com nenhum conhecimento prévio.

Pode começar pela comida.

Depois conhecer a adega.

Ver as garrafas.

Observar os parreirais.

Talvez provar um vinho.

Então surge uma pergunta.

“Que uva é essa?”

“Esse vinho foi feito aqui?”

“O que é uma vindima?”

A curiosidade aparece de maneira natural.

E vinho fica muito mais fácil de aprender quando não parece uma prova.

E para quem já gosta bastante de vinho?

Nesse caso, eu mudaria um pouco o foco.

Em vez de apenas passear pelo complexo, procuraria descobrir quais rótulos disponíveis naquele momento estão ligados efetivamente à produção paulista, quais variedades dos parreirais locais estão sendo utilizadas e quais experiências de degustação ou vinhedo estão acontecendo.

Também vale conversar com a equipe da adega.

Como existem vinhos nacionais, importados e linhas Don Patto de diferentes origens, essa conversa ajuda a separar melhor:

o vinho que faz parte da história comercial da família

da produção diretamente ligada ao terroir de São Roque.

As duas histórias são válidas.

Mas não são exatamente a mesma coisa.

Um complexo, muitas experiências

Talvez a maneira mais fácil de explicar a Vila Don Patto seja imaginar que existem várias portas de entrada.

Algumas pessoas chegam pelo vinho.

Outras pelo bacalhau.

Outras pelas massas.

Algumas vão com crianças.

Outras querem sentar sob os parreirais.

E agora algumas podem simplesmente passar a noite.

Essa diversidade está refletida na própria estrutura atual do complexo, que reúne operações gastronômicas, Vinhas da Vila, adega, empório, cervejaria, boulangerie, gelato, playground, hotel e outros espaços.

Talvez seja exatamente por isso que a Vila Don Patto consiga atingir um público tão amplo.

A tradição do vinho continua sendo importante

Mesmo que hoje o complexo seja muito maior do que uma atividade vitivinícola, seria um erro contar sua história sem o vinho.

Foi ele que veio primeiro.

1918 marca a criação da primeira adega da família.

1962 marca o lançamento do Pattão.

Em 1979, a geração seguinte assumiu os negócios e desenvolveu a Real D'Ouro.

Em 2010, a produção própria daquela fase foi encerrada e o projeto começou a se transformar na Vila Don Patto atual.

Portanto, gastronomia e turismo não apagaram a história do vinho.

Eles nasceram a partir dela.

Sobre Vinhos: vale a visita?

Sim, principalmente se você entender o que está indo conhecer.

A Vila Don Patto não precisa ser avaliada apenas pela lógica de uma vinícola tradicional.

Sua principal força está no conjunto.

Vinho, gastronomia, natureza, lazer e agora hotelaria convivem no mesmo espaço.

Isso permite algo muito interessante:

uma pessoa apaixonada por vinho pode visitar acompanhada de alguém que não tem nenhum interesse especial pela bebida, e os dois ainda podem aproveitar o passeio.

Para quem está começando no mundo do vinho, esse ambiente é especialmente convidativo.

Não existe pressão para entender.

Primeiro você aproveita.

Depois, se quiser, aprende.

Antes de visitar

A Vila Don Patto fica na Estrada do Vinho, Km 2,5, em São Roque, São Paulo.

O complexo possui diversas operações independentes, portanto os horários podem variar entre restaurante português, restaurante italiano, Vinhas da Vila, adega, empório, hotel e demais espaços.

Experiências de vinhedo, degustações e atividades sazonais também podem depender de programação.

E, neste momento, o Hotel Boutique continua oficialmente em soft opening.

Por isso, para uma visita simples ao complexo, basta organizar o dia.

Mas, se houver uma experiência específica que você não quer perder, vale confirmar antes.

Para lembrar

A Vila Don Patto não nasceu como um grande parque turístico.

A história começou muito antes.

Começou com uma família portuguesa.

Com videiras.

Com uma pequena adega.

Com vinho.

Mais de um século depois, essa história mudou de formato.

Hoje você pode chegar pela gastronomia, pelo passeio, pelos parreirais, pela adega ou até pela hospedagem.

Mas todos esses caminhos ainda carregam a mesma origem.

Uma família ligada ao vinho de São Roque desde 1918 que transformou essa tradição em um lugar onde as pessoas podem passar algumas horas, ou agora alguns dias, vivendo o vinho de uma forma muito mais ampla.

Leandro Ribeiro, fundador da Sobre Vinhos

Leandro Ribeiro

Fundador da Sobre Vinhos

Às vezes, eu só queria comprar um vinho. Escolher bem, abrir a garrafa e aproveitar. Mas, para quem estava começando, tudo parecia mais difícil do que precisava ser. Muitos termos, muitas explicações e, em alguns casos, clubes ou assinaturas. E eu pensava: “Eu só quero tomar um vinho.” Foi dessa dificuldade que nasceu a Sobre Vinhos. Um lugar para aprender, descobrir novos rótulos e escolher melhor, de forma simples e leve. Sem complicação. Sem transformar cada taça em uma aula. Hoje, sigo aprendendo, conhecendo produtores, regiões e histórias. E compartilhando aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei.