
Villa Triacca: conheça o hotel-vinícola que está ajudando a colocar Brasília no mapa do vinho brasileiro
Quando pensamos em vinho brasileiro, alguns destinos aparecem quase automaticamente.
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Quando pensamos em vinho brasileiro, alguns destinos aparecem quase automaticamente.
Serra Gaúcha. Vale dos Vinhedos. Campanha Gaúcha.
Nos últimos anos, regiões de Minas Gerais e São Paulo também começaram a ganhar espaço com os chamados vinhos de colheita de inverno.
Mas Brasília?
Para muita gente, essa ainda é uma surpresa.
Em uma área rural do Distrito Federal, o Cerrado ganhou vinhedos, cave de barricas, degustações e uma experiência de enoturismo que reúne vinho, hospedagem, gastronomia, natureza e spa.
É ali que fica a Villa Triacca Hotel Vinícola & Spa.
E a história do lugar é interessante justamente porque não começou com vinho.
Uma história que começa na Itália
Para entender a Villa Triacca, precisamos voltar ao século XIX.
A família Triacca veio de Sovizzo, uma comuna da região do Vêneto, no norte da Itália, e chegou ao Brasil por volta de 1881.
Os primeiros integrantes da família se estabeleceram nas antigas colônias italianas de Conde d'Eu e Dona Isabel, no Rio Grande do Sul, áreas ligadas à formação das atuais Garibaldi e Bento Gonçalves.
Décadas depois, a história mudaria completamente de cenário.
Em 1977, Claudino Triacca mudou-se com parte da família para o Planalto Central.
O objetivo naquele momento não era produzir vinho.
Era cultivar a terra.
A família participou do desenvolvimento agrícola do PAD-DF, o Programa de Assentamento Dirigido do Distrito Federal, e trabalhou principalmente com culturas como soja, milho, trigo e sorgo.
Foi a geração seguinte que começou a imaginar novas possibilidades para aquela propriedade.
Antes dos vinhedos, vieram os hóspedes
Ronaldo Triacca, filho de Claudino, percebeu uma necessidade bastante prática na região.
Grandes eventos ligados ao agronegócio atraíam expositores e profissionais, mas havia pouca oferta de hospedagem próxima.
Segundo relato dado por Ronaldo à revista Versatille, a solução começou de maneira simples: ele propôs a alguns expositores a antecipação das diárias e utilizou esse recurso para construir as primeiras seis suítes.
Nascia ali o embrião da Villa Triacca.
Com o tempo, o perfil dos visitantes mudou.
O local deixou de ser apenas uma solução para quem trabalhava em eventos agrícolas e passou a atrair pessoas interessadas em descansar, aproveitar a natureza e sair por alguns dias do ambiente urbano.
Hoje, a propriedade se apresenta como pioneira no conceito de hotel-vinícola no Centro-Oeste e informa possuir 23 acomodações com vista para os lagos.
Mas ainda faltava um elemento que acabaria mudando completamente sua identidade:
o vinho.
Como surgiu a ideia de plantar uvas em Brasília?
Produzir vinho fino no Cerrado pode parecer estranho à primeira vista.
O Brasil tradicionalmente construiu sua história vitivinícola nas regiões mais frias do Sul.
Ronaldo Triacca começou a estudar mais seriamente a possibilidade de produzir uvas na propriedade por volta de 2015.
O projeto ganhou força quando entrou em contato com a técnica conhecida como dupla poda, ou poda invertida. As primeiras parcelas de videiras da Villa foram plantadas em 2018.
Para entender por que isso é importante, precisamos falar um pouco sobre clima.
Mas sem complicação.
O que é um vinho de colheita de inverno?
A videira tem um ciclo natural.
Em várias regiões brasileiras, a maturação das uvas aconteceria em uma época mais chuvosa, justamente quando o excesso de água pode dificultar a obtenção de determinadas características desejadas para vinhos finos.
A dupla poda altera esse calendário.
Em vez de conduzir a planta para colher durante o verão, o manejo desloca a maturação e a colheita para o inverno.
A EPAMIG, uma das instituições responsáveis pelo desenvolvimento dessa tecnologia no Brasil, explica que a técnica permite aproveitar uma época marcada por dias ensolarados, noites mais frias e menor quantidade de chuva, condições interessantes para a maturação das uvas.
É daí que vem o nome:
vinho de colheita de inverno.
Não significa que a uva goste simplesmente de “frio”.
Significa que o produtor modifica o ciclo da videira para colher em uma janela climática mais favorável.
E por que Brasília funciona?
O inverno do Planalto Central é normalmente marcado por um período seco, bastante sol e diferença de temperatura entre dia e noite.
Com o manejo adequado, essas condições podem favorecer a maturação das uvas destinadas à produção de vinho.
A Villa Triacca está inserida justamente nesse movimento.
O que antes parecia um território improvável para viticultura começou a revelar uma nova possibilidade para o vinho brasileiro.
E não é um fenômeno exclusivo da Villa.
Outros produtores do Distrito Federal também vêm investindo na mesma lógica, ajudando a formar um novo polo vitivinícola no Cerrado.
Syrah: uma das grandes protagonistas
A Syrah ganhou papel central na história da Villa Triacca.
É dela que nasceu o Seu Claudino, um dos rótulos mais emblemáticos da propriedade.
Mas o projeto não se limita a uma única variedade.
A Villa cultiva e testa diferentes uvas tintas e brancas. O site da propriedade cita variedades como Syrah, Marselan, Tempranillo, Cabernet Franc, Sangiovese, Grenache, Nebbiolo, Sauvignon Blanc e Viognier.
O projeto continua em expansão.
Em reportagem publicada em maio de 2026, a Versatille registrava cerca de 8,5 hectares de vinhedos e trabalhos com aproximadamente 12 variedades, incluindo novas castas em fase de experimentação.
Isso torna o projeto especialmente interessante.
Estamos falando de uma região que ainda está descobrindo quais uvas se adaptam melhor, quais estilos ganham mais identidade e como o Cerrado pode se expressar dentro de uma garrafa.
Seu Claudino: vinho e memória de família

O vinho não entrou na história apenas como produto.
Os próprios nomes dos rótulos ajudam a contar a trajetória da família.
Seu Claudino homenageia Claudino Triacca, o patriarca que chegou ao Planalto Central em 1977.
A Villa apresenta o Syrah Seu Claudino como seu primeiro grande símbolo vitivinícola e como o primeiro vinho fino tinto brasiliense de sua história.
Outro rótulo homenageia a matriarca da família:
Dona Irani.
Há ainda diferentes versões e linhas produzidas pela casa, além de brancos, rosés, espumantes e blends.
É uma maneira interessante de perceber que, naquele projeto, vinho e história familiar acabam caminhando juntos.
Os vinhos de Brasília começaram a ganhar reconhecimento
O que começou como uma experiência agrícola passou a chamar atenção também em concursos.
O Seu Claudino Superiore Syrah conquistou Gran Ouro no Vinalies Internationales, na França, em 2025, depois de receber medalha de bronze no Decanter World Wine Awards de 2024.
Em 2026, a Villa Triacca foi reconhecida como Vinícola Revelação na Grande Prova Vinhos do Brasil.
Na mesma edição, o Seu Claudino Superiore 2023 ficou entre os destaques da categoria Syrah, e o Sauvignon Blanc Speciale 2024 também recebeu destaque em sua categoria.
Essas premiações não significam que Brasília tenha encontrado uma fórmula definitiva para seus vinhos.
Talvez o mais interessante seja justamente o contrário:
elas mostram que uma região muito jovem já começou a produzir resultados capazes de chamar a atenção de especialistas.
A Villa não está sozinha: existe um novo polo de vinhos no Distrito Federal
Essa parte da história é importante.
A viticultura brasiliense não foi construída por apenas uma propriedade.
A Villa Triacca se juntou a outros produtores do Distrito Federal em um projeto coletivo que resultou na Vinícola Brasília.
A estrutura reúne dez produtores da região e foi inaugurada oficialmente ao público em 21 de abril de 2024, aniversário de Brasília. A Villa Triacca está entre os projetos que integram essa iniciativa.
Isso ajuda a entender o tamanho da transformação.
Não estamos falando simplesmente de “um hotel que resolveu plantar algumas videiras”.
Existe um movimento regional de experimentação, produção e construção de identidade para os vinhos do Cerrado de altitude.
Como é visitar a Villa Triacca?
Aqui a experiência começa a ficar interessante mesmo para quem entende pouco de vinho.
Você não precisa ser especialista.
A proposta permite ver de perto algumas etapas que normalmente conhecemos apenas pela teoria.
Segundo a programação atual da Villa, há visitas aos vinhedos, acesso à cave, degustações, piqueniques e experiências ligadas ao vinho.
O Vino Bar funciona em meio aos vinhedos e o site informa atualmente atendimento diário, mediante agendamento, das 10h30 às 19h. Também são realizados tours com degustação dos rótulos da casa.
Para quem está começando, essa experiência pode tornar o vinho muito mais simples.
Você vê a videira.
Entende quando ocorre a colheita.
Conhece as barricas.
Depois prova o resultado.
De repente, várias palavras que pareciam complicadas começam a fazer sentido.
A cave de barricas
Uma das áreas mais ligadas ao universo do vinho é a cave localizada no subsolo.
É onde ficam barricas e parte dos vinhos em evolução.
A Villa apresenta ali rótulos como Seu Claudino, Seu Claudino Superiore, Dona Irani, Sauvignon Blanc e Due Terre.
Para o visitante, é uma oportunidade de entender que vinho não nasce pronto.
Entre a uva no vinhedo e a garrafa na mesa existe uma série de decisões:
tempo, recipiente, temperatura, madeira, mistura de variedades e estilo desejado pelo produtor.
Não é necessário decorar nada disso durante o passeio.
Ver o processo já muda a maneira como olhamos para a próxima garrafa.
A vindima: quando o visitante participa da colheita
Talvez uma das épocas mais especiais para conhecer a propriedade seja durante a vindima.
Por trabalhar com colheita de inverno, a Villa informa que sua Festa da Vindima costuma acontecer por volta de julho e agosto.
Hóspedes e visitantes podem participar das atividades de colheita em uma programação acompanhada de gastronomia, música e vinho.
Para quem nunca esteve em um vinhedo durante a vindima, é uma maneira bastante direta de entender algo fundamental:
antes de ser uma bebida sofisticada, vinho é agricultura.
Tudo começa no campo.
E dá para conhecer sem se hospedar?

Sim.
Esse é um ponto importante para quem estiver visitando Brasília.
Não é obrigatório dormir na Villa para participar de todas as experiências.
A propriedade recebe visitantes no restaurante mediante reserva e oferece programas específicos para quem deseja passar apenas o dia.
Atualmente, o site apresenta duas modalidades principais: Day Spa e VinoDay/ENOTUR. A área de lazer regular, porém, é reservada aos hóspedes.
Há ainda experiências como piquenique entre as videiras e programações enogastronômicas.
Um dia de vinho saindo de Brasília
Para quem não quer dirigir depois das degustações, a propriedade divulga atualmente um passeio com traslado saindo de Brasília aos sábados.
O programa inclui visita aos vinhedos e à cave, degustação dos rótulos Villa Triacca acompanhada de queijos e almoço no restaurante.
Segundo a programação publicada no site, o passeio dura aproximadamente oito horas, das 9h às 17h.
Horários e formatos podem mudar, por isso é sempre importante confirmar antes da viagem.
Gastronomia: a Itália reaparece à mesa
A origem italiana da família não ficou apenas na história.
Ela também aparece na gastronomia.
O restaurante da propriedade se chama Sovizzo, referência à cidade italiana de origem dos antepassados da família.
A proposta combina inspiração na cozinha italiana com valorização de produtos locais.
O restaurante recebe também visitantes que não estão hospedados para café da manhã, almoço e jantar, mediante reserva.
Massas, pratos de inspiração italiana e vinhos da casa acabam formando uma continuação natural do passeio.
E, para quem gosta de harmonização, existe uma vantagem evidente:
é possível provar o vinho praticamente no lugar onde a uva foi cultivada.
Jantares harmonizados
A Villa também promove experiências enogastronômicas especiais.
O site informa a realização de jantares em etapas, inspirados na cozinha italiana e combinados com rótulos da propriedade.
Esses eventos não acontecem necessariamente todos os dias.
Por isso, quem tiver interesse deve verificar a programação antes da viagem.
O Vino Spa
O vinho também aparece fora da taça.
A propriedade mantém um spa integrado à área natural, com tratamentos que utilizam produtos locais e algumas propostas com essência de vinho.
Entre as experiências divulgadas estão:
massagens relaxantes; Deep Tissue; esfoliação; escalda-pés; banho de imersão; Day Spa.
Os tratamentos funcionam mediante agendamento.
É importante entender o Vino Spa pelo que ele é: uma experiência de bem-estar inspirada no universo do vinho, não uma atividade enológica.
Para quem viaja acompanhado de alguém que não tem tanto interesse em degustações, isso também amplia bastante as possibilidades da visita.
Como é a hospedagem?
Quem decide passar uma ou mais noites encontra uma proposta voltada principalmente para descanso e contato com a natureza.
A Villa informa possuir 23 suítes com vista para os lagos.
Existem categorias diferentes.
A Suíte Luxo tem varanda e vista para os lagos.
A Suíte Essenza inclui piscina privativa aquecida.
Já o Bangalô de Charme possui aproximadamente 70 m², banheira de hidromassagem, teto de vidro no banheiro e deck voltado para o lago.
Atualmente, o hotel informa que a hospedagem é exclusiva para maiores de 14 anos.
Natureza também faz parte da experiência

A paisagem não serve apenas como fundo para fotografias.
Segundo a propriedade, quase 70 hectares de vegetação nativa são preservados, com trilha de contemplação.
A Villa também informa produzir mais de 70% da energia que consome por meio de placas fotovoltaicas, além de trabalhar com reciclagem, compostagem e sistema ecológico para tratamento de efluentes. • • • • • •
Isso é particularmente importante porque ajuda a manter o Cerrado presente na experiência.
A proposta não é tentar fazer Brasília parecer Toscana.
O cenário é brasileiro.
E isso torna o projeto mais interessante.
Vale a pena mesmo para quem não entende de vinho?
Sim.
Talvez seja justamente para esse público que uma visita a uma vinícola faça mais diferença.
É muito mais fácil entender vinho quando conseguimos ligar teoria e prática.
O que é uma videira?
Por que a uva é colhida no inverno?
O que significa barrica?
Por que um vinho tem mais estrutura que outro?
O que é um blend?
Quando vemos tudo acontecendo no mesmo lugar, essas perguntas deixam de parecer complicadas.
Você não precisa sair da Villa sabendo identificar dez aromas na taça.
Se sair entendendo um pouco melhor de onde o vinho vem, a viagem já cumpriu uma parte importante do papel.
E para quem já gosta bastante de vinho?
A experiência muda.
Quem já conhece regiões tradicionais pode encontrar ali algo diferente:
um terroir brasileiro ainda em construção.
Não estamos diante de uma região que produz vinho há centenas de anos.
Brasília está testando variedades, aperfeiçoando técnicas e construindo sua própria identidade.
Isso permite acompanhar uma história enquanto ela ainda está acontecendo.
Para o apaixonado por vinho, existe algo especialmente interessante nisso.
O que torna a Villa Triacca diferente?
Talvez não seja uma única coisa.
É o conjunto.
A história começa com uma família italiana que chega ao Brasil no século XIX.
Continua com a mudança para o Planalto Central e a produção de grãos.
Depois surgem algumas suítes para atender profissionais do agronegócio.
A hospedagem cresce.
As primeiras videiras são plantadas.
O vinho entra no projeto.
A cave aparece.
Chegam as degustações, o enoturismo, os prêmios e novas variedades.
Em pouco tempo, uma propriedade ligada ao agronegócio passou a participar da construção de uma nova região vitivinícola brasileira.
Se tivéssemos que resumir essa transformação:
terra → agricultura → hospedagem → vinhedos → vinho → enoturismo.
Sobre Vinhos recomenda?
A Villa Triacca merece entrar no radar de quem quer conhecer melhor o vinho produzido no Brasil.
Não porque Brasília precise competir com a Serra Gaúcha, Mendoza ou qualquer região europeia.
Esse nem deveria ser o objetivo.
O interessante é descobrir o que Brasília consegue produzir sendo Brasília.
O inverno seco.
O Cerrado.
A altitude.
A dupla poda.
As novas variedades sendo testadas.
Uma viticultura relativamente jovem procurando sua própria identidade.
Talvez esse seja o aspecto mais interessante da visita.
Você não está chegando a uma região cuja história já foi completamente escrita.
Está conhecendo um lugar enquanto parte dessa história ainda está começando.
Antes de visitar
A Villa Triacca fica no PAD-DF, BR-251, Km 6, região do Paranoá, Distrito Federal.
Algumas experiências exigem reserva prévia, incluindo visitação, spa, piquenique e programações específicas. O restaurante também recebe visitantes mediante reserva, e a hospedagem é atualmente destinada a maiores de 14 anos.
Como horários, valores, pacotes e programação da vindima podem mudar ao longo do ano, vale confirmar diretamente com a propriedade antes da viagem.
Para lembrar
Se alguém disser que vinho brasileiro é apenas vinho do Sul, a Villa Triacca é um bom exemplo de como esse mapa está mudando.
O Cerrado brasileiro começou a produzir vinhos que já conquistaram reconhecimento.
Mas talvez mais importante do que os prêmios seja a possibilidade de acompanhar o nascimento de uma nova cultura do vinho no Distrito Federal.
E para quem gosta de viajar, comer bem, conhecer histórias e descobrir novos vinhos, Brasília acaba de ganhar mais um motivo para entrar no roteiro.

Leandro Ribeiro
Fundador da Sobre Vinhos
Às vezes, eu só queria comprar um vinho. Escolher bem, abrir a garrafa e aproveitar. Mas, para quem estava começando, tudo parecia mais difícil do que precisava ser. Muitos termos, muitas explicações e, em alguns casos, clubes ou assinaturas. E eu pensava: “Eu só quero tomar um vinho.” Foi dessa dificuldade que nasceu a Sobre Vinhos. Um lugar para aprender, descobrir novos rótulos e escolher melhor, de forma simples e leve. Sem complicação. Sem transformar cada taça em uma aula. Hoje, sigo aprendendo, conhecendo produtores, regiões e histórias. E compartilhando aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei.
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