Prédio amarelo de dois andares com telhado de telhas e varandas de ferro, com a placa VINÍCOLA GÓES na fachada, sob céu azul com nuvens brancas. À frente, canteiro aparado e a rua de acesso.

Vinícola Góes: história, vinhos e como é visitar uma das grandes atrações de São Roque

Quem chega a São Roque procurando vinho provavelmente encontrará o nome Góes em algum momento.

Leandro Ribeiro

· 12 min de leitura

Quem chega a São Roque procurando vinho provavelmente encontrará o nome Góes em algum momento.

Mas visitar a Vinícola Góes é um pouco diferente da imagem tradicional de entrar em uma propriedade, olhar algumas barricas, provar vinho e ir embora.

Existe uma parte onde você pode caminhar, comer, visitar a loja, tomar uma taça e aproveitar o ambiente.

E existe outra, mais ligada ao vinho propriamente dito: vinhedos, experiências guiadas, degustações e contato com a história da produção.

É essa combinação que ajuda a explicar por que a Góes se tornou um dos nomes mais conhecidos do Roteiro do Vinho de São Roque.

E a história começa muito antes de o turismo chegar por ali.

Uma história que começa com agricultura

A família Góes é descendente de imigrantes portugueses.

No início do século XX, Benedito Moraes de Góes, conhecido como Nhô Dito, e sua esposa, Maria das Dores Lima de Góes, estabeleceram-se no bairro de Canguera, em São Roque.

A vida da família estava ligada à agricultura.

Feijão, batata, milho, marmelo e pera faziam parte do cultivo.

Entre as décadas de 1910 e 1920, Benedito e seu irmão Firmino começaram também a plantar videiras e elaborar vinho artesanal para consumo familiar.

Por volta de 1920, variedades americanas como Isabel e Niágara passaram a ganhar espaço nos vinhedos.

Naquele momento, ninguém estava pensando em criar um grande destino de enoturismo.

Era agricultura familiar.

1938: o vinho começa a virar negócio

O primeiro grande marco comercial aparece em 1938.

Foi nesse ano que os vinhos da família começaram a ser comercializados oficialmente.

Segundo o registro histórico da própria Góes, eles eram colocados em barris de 100 litros e despachados pela ferrovia da região em direção ao litoral paulista.

É por isso que 1938 é utilizado pela empresa como o grande marco de sua trajetória empresarial.

Em 2023, por exemplo, a vinícola comemorou seus 85 anos.

Quando nasce a marca Góes

No início dos anos 1960, Gumercindo de Góes e seus filhos começaram a construir uma nova estrutura.

O histórico oficial informa que em 1962 teve início a produção dos vinhos com o nome Góes.

No ano seguinte, 1963, os vinhos já apareciam premiados nas tradicionais Festas do Vinho da região.

Aqui nasce a marca que iria crescer nas décadas seguintes.

Um detalhe curioso é que um dos primeiros mercados conquistados foi justamente o Brasil Central: a empresa registra o envio de um lote de vinhos para uma Brasília recém-inaugurada.

A Góes cresce, e chega ao Rio Grande do Sul

Com o crescimento das vendas, os vinhedos próprios deixaram de ser suficientes para atender toda a demanda.

Em 1989, a família Góes formou uma sociedade com a família Venturini em Flores da Cunha, na Serra Gaúcha.

Essa operação continua fazendo parte da estrutura da empresa.

Hoje, a própria Góes divide suas atividades em três unidades:

São Roque, Unidade I: matriz e sede do enoturismo.

São Roque, Unidade II: vinhedos, vinificação e campo experimental.

Flores da Cunha, Unidade III: operação Góes & Venturini.

E aqui existe uma informação importante para o consumidor:

nem todos os vinhos da marca devem ser automaticamente considerados vinhos feitos com uvas cultivadas em São Roque.

A Góes possui produção e projetos em mais de uma região.

Quando queremos conhecer especificamente o vinho paulista da casa, precisamos olhar a origem declarada de cada rótulo.

A busca por vinhos finos em São Roque

São Roque construiu boa parte de sua tradição com uvas americanas e híbridas, como Bordô, Isabel e Niágara.

A Góes também faz parte dessa história.

Mas, no final dos anos 1990, a empresa começou a investir com mais força na experimentação com uvas viníferas, as variedades mais associadas aos vinhos finos.

Em 1999, foi implantado em São Roque um campo experimental com cerca de dois hectares para estudar diferentes variedades.

Esse trabalho seria importante alguns anos depois.

2003: a vinícola começa a virar também um passeio

Em novembro de 2003, a Góes inaugurou seu Parque Enoturístico.

Esse foi um ponto de virada.

A proposta deixou de ser apenas produzir e vender vinho.

O visitante passou a ter um espaço destinado a conhecer o universo da bebida, passear e aproveitar outras experiências ao redor dela.

É justamente essa parte que muita gente guarda na memória depois da visita.

Você chega e não encontra apenas uma loja.

Existe um complexo para passar algumas horas.

Como funciona a visita hoje?

Vista do alto do complexo da vinícola: um lago artificial com deque de madeira, caminhos de pedra entre jardins, palmeiras e construções de telhado vermelho. Visitantes circulam pelas alamedas.

A maneira mais simples de entender a Góes é imaginar duas experiências dentro do mesmo destino.

A primeira é o parque.

A segunda são as atividades de enoturismo.

Você pode aproveitar a parte gastronômica e comercial e, se quiser conhecer o vinho com mais profundidade, contratar uma das experiências programadas.

As regras de acesso, eventos e atividades podem variar, então é importante não presumir que todas as atrações estejam incluídas ou disponíveis todos os dias.

A parte para passear, comer e comprar

Na área enoturística existem jardins, lago ornamental, loja, espaços gastronômicos, cafés e pontos de venda de produtos regionais.

A loja principal ocupa aproximadamente 400 m², segundo a vinícola, e reúne diferentes produtos da marca.

Há ainda uma área destinada aos vinhos finos.

No complexo também encontramos produtos como:

queijos; doces; chocolates; licores; artesanato; outros produtos regionais.

É daí que vem aquela sensação de mistura entre:

vinícola + parque + gastronomia + empório.

Dá para almoçar por lá?

Sim.

A estrutura possui restaurante com cardápio à la carte, incluindo opções de carnes, peixes e massas.

Também há outros pontos de alimentação dentro do parque. • • • • • •

Para quem quer apenas passar algumas horas em São Roque, isso facilita bastante.

É possível encaixar vinho, almoço e passeio dentro do mesmo lugar.

E existe um Wine Bar

Outra opção é o Wine Bar.

Ele fica próximo ao lago ornamental e possui área interna e deck panorâmico.

A proposta é justamente permitir que o visitante prove diferentes rótulos em taça, com destaque para os vinhos finos, acompanhados por aperitivos.

É uma alternativa interessante para quem não quer fazer uma degustação formal.

Você simplesmente escolhe uma taça, senta e aproveita.

E a outra parte: conhecer os vinhedos

Para quem quer ir além do parque, existe o Tour dos Vinhedos.

O passeio começa no Parque Enoturístico.

De lá, os visitantes embarcam em um veículo turístico, descrito pela própria vinícola como um pequeno “trenzinho”, e seguem até a área de cultivo.

Durante o passeio, o guia apresenta informações sobre as videiras e a produção.

No formato atualmente divulgado, o visitante permanece embarcado durante todo o percurso.

Ao final, há um brinde com Espumante Moscatel e/ou suco de uva.

Essa separação explica muito bem a experiência que muitos visitantes lembram:

uma área para circular e aproveitar o dia; outra experiência que leva até os vinhedos.

Quer aprender mais? Existem degustações

A Góes também oferece degustações acompanhadas.

Na página específica da Degustação Orientada, a vinícola informa atualmente uma prova de cinco rótulos entre vinhos e espumantes, conduzida por sommelier.

Existe, porém, uma pequena diferença dentro da própria comunicação oficial: a página geral do enoturismo ainda menciona uma degustação de quatro rótulos na área de vinhos finos.

Por isso, para quem for reservar, vale confirmar o formato vigente.

O mais importante é a proposta:

não é necessário saber de vinho antes de participar.

A atividade foi pensada justamente para explicar estilos, características e harmonizações de maneira acessível.

Para quem quer algo mais completo

Pátio de uma ruína com paredes de reboco descascado e tijolo à vista. Encostados na parede, equipamentos antigos de vinificação em ferro, com placas de identificação no chão.

Há também experiências mais aprofundadas.

A degustação premium divulgada pela vinícola, por exemplo, inclui deslocamento em Wine Bus até os vinhedos, prova orientada de quatro rótulos premium e acompanhamento de aperitivos.

Outra experiência oferece um dia acompanhado por um integrante da família Góes, incluindo vinhedos, área de produção, tanques, barricas, degustações e almoço harmonizado.

Além disso, aparecem na programação atividades como:

piqueniques; WineBike; vindima; eventos gastronômicos; Wine Garden; atividades especiais durante o ano.

A programação muda conforme a época, portanto o calendário precisa ser consultado antes da visita.

E os vinhos produzidos em São Roque?

Aqui começa uma parte especialmente interessante da história.

Em 2007, foi lançada a linha Góes Tempos, ligada a uma nova fase da viticultura local.

Naquele projeto, a vinícola destaca variedades cultivadas em São Roque como:

Cabernet Sauvignon; Cabernet Franc; Lorena.

A Lorena é uma variedade híbrida desenvolvida pela Embrapa. • • • • • •

• • •

Foi uma tentativa clara de mostrar que São Roque poderia oferecer mais do que sua tradição de vinhos de mesa.

O Cabernet Franc que mudou a conversa

A safra de 2014 teve um papel simbólico nessa história.

Um Cabernet Franc cultivado em São Roque foi selecionado entre as amostras representativas da 22ª Avaliação Nacional de Vinhos.

O resultado foi registrado tanto pela própria Góes quanto pela imprensa especializada da época.

Segundo a vinícola, foi o primeiro vinho produzido integralmente com uvas paulistas a alcançar essa distinção.

Em 2016, ele chegou ao mercado como:

Góes Tempos Philosophia Cabernet Franc Reserva.

O rótulo tornou-se um dos símbolos da busca da Góes por vinhos finos produzidos em São Paulo.

Outros vinhos vieram depois

Nos anos seguintes, a linha se expandiu.

Em 2016 apareceu o Míneres Syrah.

Em 2017, o rosé Pétalas Cabernet Franc.

O portfólio atual mostra que essa busca continua.

Entre os vinhos hoje apresentados pela própria Góes encontramos exemplos como:

Tempos de Góes Míneres Syrah; Tempos de Góes Pétalas Cabernet Franc Rosé; Tempos de Góes Sauvignon Blanc Reserva; Tempos de Góes Tannat Reserva; Tempos de Góes Malbec Reserva; Concreto Cabernet Franc & Syrah; Maestria Chardonnay; Lotes de Coleção com Touriga Nacional, Tinta Roriz, Petit Verdot e Verdelho.

Também continuam existindo linhas tradicionais, vinhos de mesa, espumantes e outros produtos que fazem parte da história comercial da marca. • • • • • • • •

Um exemplo interessante: Concreto Cabernet Franc & Syrah

Entre os rótulos atuais existe um exemplo particularmente útil para entender a fase moderna da Góes.

O Concreto Cabernet Franc & Syrah 2023 é informado pela própria vinícola como produzido com uvas cultivadas em São Roque.

O corte é formado por 63% Cabernet Franc e 37% Syrah e passa cinco meses em recipientes de concreto.

É exatamente o tipo de rótulo que vale procurar para quem deseja conhecer não apenas “um vinho Góes”, mas uma expressão atual da viticultura de São Roque.

E onde entram os vinhos de colheita de inverno?

A Góes também passou a trabalhar com essa técnica.

Na colheita de inverno, o manejo da videira é alterado para que a maturação das uvas aconteça durante uma época mais seca.

Isso permite fugir de parte das chuvas do verão e aproveitar outras condições climáticas para a maturação.

Em 2023, quando celebrou 85 anos, a Góes informava possuir mais de 50 rótulos em seu portfólio, sendo 15 deles vinhos finos de colheita de inverno.

Esse número é um retrato daquele ano e não deve ser interpretado como uma contagem permanente do portfólio atual.

Mas mostra como a empresa passou a incorporar novas técnicas à sua produção.

Tradição e vinho fino convivem no mesmo lugar

Duas taças de vinho rosé erguidas em brinde por duas mãos, emolduradas pelo arco de uma parede em ruína, com vegetação ao fundo.

Talvez seja justamente essa mistura que torne a Góes interessante.

De um lado, existem os vinhos tradicionais que ajudaram a construir a história comercial da marca.

De outro, vemos Cabernet Franc, Syrah, Chardonnay, Sauvignon Blanc, Tannat, Malbec e projetos experimentais.

Uma coisa não apaga a outra.

Na verdade, elas ajudam a contar diferentes momentos do vinho brasileiro.

Vale a pena para quem está começando?

Sim.

Principalmente porque o local permite escolher o nível de profundidade.

Você pode chegar sem saber praticamente nada sobre vinho.

Caminhar.

Almoçar.

Entrar na loja.

Experimentar uma taça.

E ir embora.

Ou alguma curiosidade pode surgir.

Então você faz uma degustação.

Depois visita os vinhedos.

Começa a perceber a diferença entre vinho de mesa e vinho fino.

Descobre que São Roque produz Cabernet Franc.

Entende que a mesma empresa também possui produção na Serra Gaúcha.

O conhecimento vai acontecendo naturalmente.

Esse talvez seja um dos formatos mais interessantes de enoturismo para iniciantes.

E para quem já entende um pouco mais?

Eu mudaria a estratégia da visita.

Quem já possui algum repertório pode procurar principalmente os rótulos ligados aos projetos de vinhos finos de São Roque.

Vale observar:

Cabernet Franc; Syrah; • •

projetos de colheita de inverno; pequenos lotes; métodos diferentes de amadurecimento.

Assim a visita deixa de ser apenas turística e passa a mostrar uma fase muito interessante da evolução do vinho paulista.

A Góes ajuda a contar a própria história de São Roque

Essa talvez seja a parte mais importante.

A Vinícola Góes não chegou a São Roque depois que a cidade se tornou um destino turístico.

Ela faz parte da história que ajudou a construir essa identidade.

As primeiras videiras da família aparecem no começo do século XX.

A comercialização começa em 1938.

A marca Góes ganha forma nos anos 1960.

A produção se expande para o Rio Grande do Sul.

Começam experimentos com uvas viníferas.

Surge a linha Tempos.

O Parque Enoturístico abre em 2003.

Um Cabernet Franc paulista ganha reconhecimento nacional.

E novas técnicas e variedades continuam aparecendo.

É uma transformação de mais de cem anos.

Sobre Vinhos: o que torna a visita interessante?

Não é apenas poder comprar uma garrafa.

É justamente perceber as várias camadas do lugar.

Existe a Góes do parque.

Onde você caminha, come, toma uma taça e aproveita o dia. • • •

Existe a Góes histórica.

Da família que começou plantando uvas e produzindo vinho artesanal.

Existe a Góes comercial.

Que cresceu, chegou à Serra Gaúcha e construiu um grande portfólio.

E existe a Góes que continua experimentando.

Plantando variedades finas em São Roque, testando técnicas e procurando novas formas de produzir vinho paulista.

Quando juntamos tudo isso, o passeio fica muito mais interessante.

Antes de visitar

A Vinícola Góes fica na Estrada do Vinho, 9111, Canguera, São Roque (SP).

O complexo funciona ao longo da semana, mas restaurantes, Wine Bar, tours, degustações e eventos possuem horários e calendários próprios.

Algumas experiências exigem ingresso e reserva antecipada.

Portanto, o melhor caminho é consultar a programação oficial antes da viagem.

urlSite oficial da Vinícola Góeshttps://www.vinicolagoes.com.br/

Para lembrar

A melhor maneira de entender a Vinícola Góes é não enxergá-la apenas como uma loja de vinhos ou apenas como um parque turístico.

Ela é as duas coisas, e ainda existe uma história de produção por trás.

Você pode ir apenas para almoçar e aproveitar São Roque.

Pode fazer um passeio pelos vinhedos.

Pode participar de uma degustação.

Ou pode procurar os vinhos finos produzidos com uvas paulistas e descobrir uma parte menos conhecida da viticultura de São Paulo.

É justamente essa liberdade que torna o lugar interessante.

Quem está começando consegue aproveitar sem se sentir perdido.

Quem já conhece vinho consegue procurar algo além do passeio.

E, no meio disso tudo, existe uma família que começou cultivando videiras há mais de um século e que continua tentando descobrir até onde o vinho de São Roque pode chegar.

Leandro Ribeiro, fundador da Sobre Vinhos

Leandro Ribeiro

Fundador da Sobre Vinhos

Às vezes, eu só queria comprar um vinho. Escolher bem, abrir a garrafa e aproveitar. Mas, para quem estava começando, tudo parecia mais difícil do que precisava ser. Muitos termos, muitas explicações e, em alguns casos, clubes ou assinaturas. E eu pensava: “Eu só quero tomar um vinho.” Foi dessa dificuldade que nasceu a Sobre Vinhos. Um lugar para aprender, descobrir novos rótulos e escolher melhor, de forma simples e leve. Sem complicação. Sem transformar cada taça em uma aula. Hoje, sigo aprendendo, conhecendo produtores, regiões e histórias. E compartilhando aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei.